
Chegou em casa e bateu a porta. Foi direto ao lavabo e abriu preguiçosamente a torneira da banheira. Hoje era dia de usar os sais de banho há muito escondidos no armário. O apartamento alugado e velho, as paredes que se dividiam entre fungos e cartazes dos anos 80, o chão com tapete corroído, as portas de tinta descascada contrastavam com o vigor de sua maquiagem pulsante, seus longos cabelos ruivos, seu rosto angular, seus braços musculosos e suas costas largas.
A água subia. Passou os dedos entre os fios vermelhos, ergueu-os e amarrou-os com uma fita. Começou a tirar a roupa. Deslizou o vestido sobre o corpo. O tecido colado roçou-lhe os ombros, descobriu-lhe os seios, massageou-lhe a barriga e, enfim, revelou seu sexo. Um pé depois do outro, seu corpo experimentava as sensações daquela água morna, lenta, reflexiva. De olhos fechados, seu dia difícil voltava-lhe à lembrança.
Não é a primeira vez que os homens me ferem. O primeiro deles fora o próprio pai. O gosto de sangue na boca fazia com que se voltasse às suas cicatrizes e às mais recentes escoriações. Olhava-as como faziam os cães abandonados, acariciava-as com a espuma cara. Não se arrependia. Como disse ao pai, "sou comum-de-dois, não sou epiceno".
Tomou o pequeno espelho do chão. Por entre o reflexo de sangue e maquiagem, via aquele quartinho de motel sujo, aquele desconhecido de odores fortes, de feições embrutecidas. "Vem cá. Eu sei que posso fazer com você o que eu quiser".
E foi. Quando ele aproximou a língua do seu corpo, pôde sentir o cheiro de suor, de fumaça, de desrespeito e de maldade. Vorazmente, deitou-a na cama e rasgou suas roupas íntimas. Asco. E ao encontrar todo aquele sexo exposto, desafiante, o homem desferiu o primeiro golpe.
Uma das vezes em que sua mão descera pesada, punitiva, ele urrou. "Você é homem". Não entendia porque as pessoas teimavam em impor-lhe o rótulo de macho. "Você é homem". Desde o expurgo familiar, buscara a si mesma e encontrara-se, fora dos limites de gênero impostos por seu círculo de convivências. "Você é homem". Vivia sozinha. Era tratada como um bicho.
Foi essa a primeira vez que revidou. Mas bateu. E bateu. Montou naquele homenzinho sórdido e quebrou-lhe o nariz. O lençol sujo de sangue. Fraturou-lhe as costelas. Os urros de dor. Reduziu-lhe a face a uma massa disforme, sem vida. Sua existência acabara de ensinar-lhe o prazer de ser bicho-homem. "Mas eu não sou epiceno, sou comum-de-dois". Mergulhou os cabelos rubros na água quente e fechou demoradamente os olhos.
P.S.: Gramaticalmente, o estudo dos gêneros tem como categorias, dentre outros o comum-de-dois e o epiceno. O primeiro refere-se aos substantivos que têm uma mesma forma de designar o masculino e o feminino, como, por exemplo, dentista. O último, caracteriza-se pelo acompanhamento das palavras "macho" e "fêmea" nos substantivos, como em "cobra-fêmea" e "cobra-macho".