quarta-feira, 13 de junho de 2007

Rodin Afrodisíaco


A angústia de sabê-lo no quarto contíguo ao seu corroía-lhe o peito. Ela olhava fixamente para o teto, mesmo que a escuridão daquela alcova a impedisse de enxergar o que quer que fosse. Mas fechar dos olhos era entregar-se. Era desistir de todo aquele sofrimento por algumas horas. Provavelmente ele também estaria se contorcendo na cama, pensando nela. Não era justo desistir naquelas circunstâncias.

Assim, de súbito, disparou no meio da escuridão. Abriu a porta do quarto. Abriu a dele. O ar pesado denunciava outra respiração ofegante, além da dela mesma. Pé ante pé ela vivia cada segundo da excitação do quase-tocar. Quando enfim ele agarrou seu rosto entre aquelas mãos grandes, ela ditou o ritmo. Roçou levemente seu nariz contra o dele.

Enconstou os lábios em seus cílios, nos olhos. Passeou a ponta da língua pelos traços de sua orelha, as curvas da nuca. Ela continuava com os olhos abertos. Ela continuava sem nada enxergar. Mas foi como se ele tivesse lido em seus olhos - em sua alma - que ele escorregou as mão por sua cintura e tocou carinhosamente a barra do vestido. E o levantou devagar, fazendo questão de avisar para cada célula daquele corpo que ele, ele a estava despindo.

Naquele momento a consciência corporal era plena. Ambos tinham a certeza de que tudo pulsava..os ossos..os pêlos..os órgãos internos...no..mesmo..ritmo. Melhor sentar, as pernas não suportam todo o êxtase da legítima manifestação do furor das forças da natureza. Enfim. Enfim! Aqueles lábios se tocaram e ambos puderam saborear o gosto quente daquele beijo sofrido. Milhares de vezes vivido na solidão dos pensamentos.

O arranjo dos corpos daqueles dois parecia música. A aparente confusão de pernas e braços era na verdade a mais pura harmonia helicoidal. Uma vontade de se atar de forma que a separação seja então impossível. Ela o agarrava pela nuca. Ele repousava a mão na coxa dela. Os naturalistas certamente veriam ali o arranjo da fita dupla do DNA. O ácido que dita quem somos, que nos dá a vida. E eles se sentiam mais vivos do que nunca naquele momento.