Cada um de nós já deve ter escutado de um professor de literatura apaixonado que poesia deve ser lida em voz alta. Dependendo da ocasião, bradada a plenos pulmões. Não só concordo como vou além: às vezes, a beleza dos versos pode ser potencializada se adentrarmos a plataforma cultural do autor. Explico-me.
Psicologia de um vencido
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.
Produndissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
Já o verme -- este operário das ruínas --
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,
Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
O hipnotismo dos versos de Augusto dos Anjos tem desdobramentos antagônicos em alguns leitores. É radical. Uns acham que ele ultrapassou os limites, outros agradecem-no por tê-lo feito. Mas é inquestionável que sua produção está entre às dos gênios da originalidade.
Augusto dos Anjos era paraibano. Ele compunha no quintal de casa. Como conta Ferreira Gullar, o dito homem caminhava em volta de um limoeiro, declamando poesia, sempre acompanhada de gestos “excêntricos”. Depois disso entrava em casa e colocava tudo no papel. Seu comportamento de ‘poeta da morte’ (como se autodenominava o autor), rendeu-lhe a fama de louco. Louco assim que até a irmã declarava.
Mas a o mais relevante de sua biografia para esta discussão é que Augusto dos Anjos era paraibano. Paraibano das vogais escancaradas, dos ‘ds’ e ‘ts’ marcados com a ponta da língua nos dentes, do ‘x’ achocalhado, do 'r' rasgado, da leitura ritmada, cantada, enfim, nordestina.
Se relermos a ‘psicologia de um vencido’ assim, na linguagem em que o poeta a concebeu, conseguiremos extrair dos versos ainda mais pujança e força – digo “ainda mais” porque o tema já é responsável por boa parte do impacto causado pela seqüência de idéias. A composição torna-se mais feroz e somos dragados de vez pela ousadia dos termos científicos, escatológicos e pela beleza mórbida da companhia constante da morte.