De fora das grades, a mansão da rua Barbarito Torres dava a impressão de um monstro sem vida. As grandes pilastras que seguravam os muitos andares e metros de janelas, em contraste com a ausência de qualquer movimento que fosse, fazia parecer que aquele era um gigante em coma. Movimento, aliás, só o das plantas; das fileiras de pés de eucalipto e daquelas arvorezinhas-bonitinhas-que-parecem-de-mentira-mas-não-são que ocupavam os milhares de metros quadrados que circundavam o casarão.
Encravado na imensidão do verde, o jardim zen. Nele, um pequeno lago com uma cachoeira formada por pedrinhas milimetricamente organizadas. Dentro do lago, uma carpa. Uma só. A filha do casal Rinzler Müller apelidara o peixinho de Jorge, mas isso já faz muito tempo.
A boa alimentação e os cuidados diários fizeram de Jorge uma carpa com escamas vermelho-sangue brilhantes. Ele tinha um espaço até razoável para nadar entre os objetos de design que ficavam na água, que a senhora Rinzler Müller comprara ela mesma, numa viagem a Veneza. Mas isso já faz muito tempo, ela já esqueceu dos "achados" adquiridos no exterior.
Nos meses de "inauguração" da morada da família, eram rotineiros os happy hours de domingo regados a champanhe e música. Jorge nem se incomodava com o barulho. Aliás, ele bem que gostava quando caíam umas gotinhas do espumante nas águas calmas do laguinho. Mas...isso já faz muito tempo. Hoje é difícil que alguém venha "refugiar-se no jardim zen".
Antigamente, Jorge fazia companhia, uma vez por semana, ao jardineiro da mansão da rua Barbarito Torres. Através do espelho d'água, ele espiava a destreza do homem que aparava as plantas e, de vez em quando, trazia cores originais ao cotidiano de Jorge através das novas espécies de flores que plantava nos jarrinhos de porcelana. Mas isso já faz muito tempo: ajudado pelo cortador de grama e pelas novas tecnologias agrícolas, o jardineiro só aparecia no campeiro uma vez por mês, quando muito.
Olha, mesmo para um peixe, os dias de Jorge são bem monótonos - mesmo para um peixe gerado e nascido para estar em meio a uma família como a dos Rinzler Müller. O que serve de consolo, pelo menos, são as noites estreladas que, através da camada grossa de água, mais parecem deliciosos delírios impressionistas.
Era fim de tarde. A iluminação do jardim estava estonteante, como prometera o arquiteto que fizera aquela natureza artificial. Jorge reconheceu na jovem que parara na frente do lago a menina que uma vez o batizara. Ele não conseguia distinguir, por culpa das lentes com as quais via a cena, qual era o real semblante que se imprimia no rosto da jovem Rinzler Müller. Mas Jorge estava certo. Aquilo eram gotinhas de suor que lentamente brotavam da face da menina.
Logo, para fazer companhia às longas pernas da primogênita, mais um par delas chegou ao jardim zen. Fazia tempo, mas Jorge conseguiu reconhecer naqueles membros que despossuía o irmão mais novo do senhor Rinzler Müller. A água não permitiu que Jorge soubesse as confidências que os dois trocavam, mas ele conseguia, pelo menos, distinguir os movimentos.
Encravado na imensidão do verde, o jardim zen. Nele, um pequeno lago com uma cachoeira formada por pedrinhas milimetricamente organizadas. Dentro do lago, uma carpa. Uma só. A filha do casal Rinzler Müller apelidara o peixinho de Jorge, mas isso já faz muito tempo.
A boa alimentação e os cuidados diários fizeram de Jorge uma carpa com escamas vermelho-sangue brilhantes. Ele tinha um espaço até razoável para nadar entre os objetos de design que ficavam na água, que a senhora Rinzler Müller comprara ela mesma, numa viagem a Veneza. Mas isso já faz muito tempo, ela já esqueceu dos "achados" adquiridos no exterior.
Nos meses de "inauguração" da morada da família, eram rotineiros os happy hours de domingo regados a champanhe e música. Jorge nem se incomodava com o barulho. Aliás, ele bem que gostava quando caíam umas gotinhas do espumante nas águas calmas do laguinho. Mas...isso já faz muito tempo. Hoje é difícil que alguém venha "refugiar-se no jardim zen".
Antigamente, Jorge fazia companhia, uma vez por semana, ao jardineiro da mansão da rua Barbarito Torres. Através do espelho d'água, ele espiava a destreza do homem que aparava as plantas e, de vez em quando, trazia cores originais ao cotidiano de Jorge através das novas espécies de flores que plantava nos jarrinhos de porcelana. Mas isso já faz muito tempo: ajudado pelo cortador de grama e pelas novas tecnologias agrícolas, o jardineiro só aparecia no campeiro uma vez por mês, quando muito.
Olha, mesmo para um peixe, os dias de Jorge são bem monótonos - mesmo para um peixe gerado e nascido para estar em meio a uma família como a dos Rinzler Müller. O que serve de consolo, pelo menos, são as noites estreladas que, através da camada grossa de água, mais parecem deliciosos delírios impressionistas.
Era fim de tarde. A iluminação do jardim estava estonteante, como prometera o arquiteto que fizera aquela natureza artificial. Jorge reconheceu na jovem que parara na frente do lago a menina que uma vez o batizara. Ele não conseguia distinguir, por culpa das lentes com as quais via a cena, qual era o real semblante que se imprimia no rosto da jovem Rinzler Müller. Mas Jorge estava certo. Aquilo eram gotinhas de suor que lentamente brotavam da face da menina.
Logo, para fazer companhia às longas pernas da primogênita, mais um par delas chegou ao jardim zen. Fazia tempo, mas Jorge conseguiu reconhecer naqueles membros que despossuía o irmão mais novo do senhor Rinzler Müller. A água não permitiu que Jorge soubesse as confidências que os dois trocavam, mas ele conseguia, pelo menos, distinguir os movimentos.
Os pares de pernas se confundindo, as mãos agarradas nos cabelos um do outro. Os beijos sofridos e, embalada pela viscosidade do suor grosso, uma dança; uma dança que Jorge nunca tivera - e nem teria - a chance de experimentar.
No meio baile extasiado, a carpa perdera a capacidade de ver a dupla. Alguma coisa arrebatara a calmaria das águas do laguinho. Por entre círculos concêntricos que se expandiam agora até as margens, descia para o fundo do lago uma novidade. Como Jorge atestaria pouco mais tarde, não se tratava do champanhe a que, há muito tempo, ele uma vez se acostumara.
E nem Jorge imaginaria que, perdida na vastidão de concreto, decadência e mato do casarão da rua Barbarito Torres, havia uma vida além da dele mesmo.
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