sexta-feira, 28 de março de 2008
sexta-feira, 7 de março de 2008
Homem? Mulher? Os dois
quarta-feira, 5 de março de 2008
Galinha metropolitana

Chamei a Mara pra almoçar lá em casa. Menu: vinho branco e salada César. É, a Mara é vegetariana. Aliás, sempre que saímos pra jantar com ela temos que ter certeza de que o lugar vai satisfazer suas "pré-condições".
Sendo sincera, eu não sou chegada a vegetarianos. Desde que os dentes apontaram na arcada inferior da minha boca grande sou comedora de carne e não vejo muita lógica em passar a vida inteira ruminando mato. Dentre tantas ideologias descabeladas que circulam por aí, escolher uma que determine uma ortodoxia alimentar, seriamente, soa como fraqueza de espírito.
Depois da panfletagem anti-vegan, quero contar o porquê de eu me dar ao trabalho de cozinhar para a Mara. Na realidade, quem ía se divertir com o negócio era eu, que planejava degolar uma galinha rechonchuda na frente dela. Não seria freak-showmente explícito, mas uma situação criada para que ela visse o assassinato, digamos, acidentalmente. Assim, por acaso.
A casa onde eu morava era propícia para a execução premeditada. Tinha um quintal com jardinzinho e tudo (aliás, era uma dessas raridades que você nunca acha que vai ser o felizardo de encontrar numa cidade neuroticamente grande). Um sobradinho no centro, perto do metrô e da feira de bugingangas dos domingos.
O bicho fora escolhido com a ajuda dos cúmplices Rui, Olavo e Aninha. Uma galinha gorda e branca, de crina enrugada vermelho-sangue. Parecia uma pomba da paz - anabolizada, claro. Evitamos contato com ela nos dias seguintes, pra gente não se apegar, sabe. Intimidade é um problema, principalmente quando envolve alguém que se quer matar.
Pois bem, os três comparsas já estavam em casa. Pratos à mesa acompanhados de um jarrinho bem-humorados de girassóis amarelo-ouro. As outras plantas - as que geralmente se come - chegaram pelas mãos do Rui. Depois disso não demorou muito até a Mara bater nas persianas da janela da frente, avisando que estava lá fora.
Olhamo-nos os quatro. Estávamos preparados para fazer com que Mara encarasse a verdadeira crueza da nossa cadeia alimentar. Na comparação espirituosa da Aninha, a Mara era um Jesus em pequena escala, uma cobaia sacrificial que redimiria seu povo.
- Oi, gente. Tudo bem? O dia tá maravilhoso, né? Solzão aberto que parece que sorri pro pessoal aqui embaixo.
Depois dos "como-vais" de praxe, decidimos que iríamos comer. E o Olavo:
- Ei, Mara, pega aí o azeite balsâmico pra gente colocar na salada!
- Onde é que a Dani põe o azeite, Olavo?
- No gaveteiro da cozinha, perto da portinha que dá pro jardim.
Quem estava no jardim éramos eu e a galinha. Ambas numa serenidade budista que eu suspeito que anteceda quase todos os momentos de morte. Ao ouvir a deixa, empunhei o pescoço da galinha e a faca de churrasco. Quando a Mara levantou o azeite:
Sendo sincera, eu não sou chegada a vegetarianos. Desde que os dentes apontaram na arcada inferior da minha boca grande sou comedora de carne e não vejo muita lógica em passar a vida inteira ruminando mato. Dentre tantas ideologias descabeladas que circulam por aí, escolher uma que determine uma ortodoxia alimentar, seriamente, soa como fraqueza de espírito.
Depois da panfletagem anti-vegan, quero contar o porquê de eu me dar ao trabalho de cozinhar para a Mara. Na realidade, quem ía se divertir com o negócio era eu, que planejava degolar uma galinha rechonchuda na frente dela. Não seria freak-showmente explícito, mas uma situação criada para que ela visse o assassinato, digamos, acidentalmente. Assim, por acaso.
A casa onde eu morava era propícia para a execução premeditada. Tinha um quintal com jardinzinho e tudo (aliás, era uma dessas raridades que você nunca acha que vai ser o felizardo de encontrar numa cidade neuroticamente grande). Um sobradinho no centro, perto do metrô e da feira de bugingangas dos domingos.
O bicho fora escolhido com a ajuda dos cúmplices Rui, Olavo e Aninha. Uma galinha gorda e branca, de crina enrugada vermelho-sangue. Parecia uma pomba da paz - anabolizada, claro. Evitamos contato com ela nos dias seguintes, pra gente não se apegar, sabe. Intimidade é um problema, principalmente quando envolve alguém que se quer matar.
Pois bem, os três comparsas já estavam em casa. Pratos à mesa acompanhados de um jarrinho bem-humorados de girassóis amarelo-ouro. As outras plantas - as que geralmente se come - chegaram pelas mãos do Rui. Depois disso não demorou muito até a Mara bater nas persianas da janela da frente, avisando que estava lá fora.
Olhamo-nos os quatro. Estávamos preparados para fazer com que Mara encarasse a verdadeira crueza da nossa cadeia alimentar. Na comparação espirituosa da Aninha, a Mara era um Jesus em pequena escala, uma cobaia sacrificial que redimiria seu povo.
- Oi, gente. Tudo bem? O dia tá maravilhoso, né? Solzão aberto que parece que sorri pro pessoal aqui embaixo.
Depois dos "como-vais" de praxe, decidimos que iríamos comer. E o Olavo:
- Ei, Mara, pega aí o azeite balsâmico pra gente colocar na salada!
- Onde é que a Dani põe o azeite, Olavo?
- No gaveteiro da cozinha, perto da portinha que dá pro jardim.
Quem estava no jardim éramos eu e a galinha. Ambas numa serenidade budista que eu suspeito que anteceda quase todos os momentos de morte. Ao ouvir a deixa, empunhei o pescoço da galinha e a faca de churrasco. Quando a Mara levantou o azeite:
- Quem tá cacarejando aí? Você tá criando uma galinha, Dani?
Assim que ela colocou o rosto na portinha do jardim eu dei início à execução. Nem sei se fiz tudo direito, mas a infância nas fazendas do interior com certeza me deram uma idéia de como a coisa funcionava. Em meio minuto, era vermelho e preto pra todo lado. O sangue da galinha, ao encontrar o preto do azeite balsâmico derrubado pela Mara, transformou-se numa viscosidade marrom, de cheiro forte.
- Ai, Mara, desculpa! Eu vou preparar um franguinho pro pessoal. Nem vi você aqui! Também, você não pode querer que todo mundo sobreviva de salada, né? Ela nem respondeu. Passou o resto da tarde calada, com o olho em outra dimensão. O quarteto aqui não se preocupou, mesmo as pessoas mais sensíveis um dia se recuperam.
Não demorou muito. Pouco depois a Mara chamou-nos todos pra almoçar na casa dela. Menu: salada verde e suco de abacaxi com hortelã. Lá pro meio da refeição ela soltou a novidade. A experiência catártica daquela tarde fez com que ela descobrisse um dos enormes prazeres da vida: agora era ela quem matava galinhas de vez em quando. É. A Mara compra os bichinhos, espera uns dias e depois os degola num golpe só. Diz ela que a adrenalina e a força das cores do ritual são mais excitantes do que uma generosa carreira de cocaína. Sua única dúvida é em relação ao que fazer com os cadáveres, porque ela continua uma vegetariana convicta.
Assim que ela colocou o rosto na portinha do jardim eu dei início à execução. Nem sei se fiz tudo direito, mas a infância nas fazendas do interior com certeza me deram uma idéia de como a coisa funcionava. Em meio minuto, era vermelho e preto pra todo lado. O sangue da galinha, ao encontrar o preto do azeite balsâmico derrubado pela Mara, transformou-se numa viscosidade marrom, de cheiro forte.
- Ai, Mara, desculpa! Eu vou preparar um franguinho pro pessoal. Nem vi você aqui! Também, você não pode querer que todo mundo sobreviva de salada, né? Ela nem respondeu. Passou o resto da tarde calada, com o olho em outra dimensão. O quarteto aqui não se preocupou, mesmo as pessoas mais sensíveis um dia se recuperam.
Não demorou muito. Pouco depois a Mara chamou-nos todos pra almoçar na casa dela. Menu: salada verde e suco de abacaxi com hortelã. Lá pro meio da refeição ela soltou a novidade. A experiência catártica daquela tarde fez com que ela descobrisse um dos enormes prazeres da vida: agora era ela quem matava galinhas de vez em quando. É. A Mara compra os bichinhos, espera uns dias e depois os degola num golpe só. Diz ela que a adrenalina e a força das cores do ritual são mais excitantes do que uma generosa carreira de cocaína. Sua única dúvida é em relação ao que fazer com os cadáveres, porque ela continua uma vegetariana convicta.
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