Era a primeira vez que Catarina saía de casa sem amor. À medida que ela descia os quarteirões da rua Lambari, o sol forte incomodava seu rosto, de músculos contraídos. Andava, mas não tinha consciência de que o fazia, perdida que estava em suas próprias elocubrações a respeito das cinzas decepções que insistiam em fazer parte da sua existência.
Pois bem, tão perdida estava no labirinto de sua idéias que só depois do "Bom dia, dona Catarina" do porteiro do edifício Merquer ela percebeu que chegara ao trabalho. Sala por sala, ela forçava o sorriso para seus colegas de escritório que, com certeza, nunca adivinhariam o quão miserável ela estava. O trabalho a obrigava a ser outra pessoa - e esse era mais um soco no estômago que ela tomava diariamente.
No banheiro, onde ela se escondia para alongar as costas maltratadas pela horas sentada na cadeira barata, ela se encarava no espelho. Os olhos inchados - que deveriam agora ser alvo dos cochichos e das mensagens eletrônicas no escritório - eram a prova cabal de sua falência como ser humano. Enxergar seu belos e verdadeiros olhos por detrás daquelas molduras dilatadas e grosseiras, forçadas a trabalhar a madrugada inteira, só aumentavam sua vontade de chorar de novo.
E, quando a primeira lágrima quente rolou pelas maçãs do rosto, Catarina sentiu-as arder. As mangas da camisola, as barras do lençol e as pontas dos dedos já haviam passeado longamente por aquela pele, retirando dela a água que corria sem convite, mas também a suavidade e a brancura que lhe eram peculiar.
Depois de passar o dia vagando pelos corredores do prédio (se você perguntar para Catarina como foi no trabalho ela dirá, depois de olhar para o alto, que não lembra de nada), ela caminhou de volta para seu apartamento.
- Boa tarde, Rui.
- Boa tarde, dona Catarina.
Entrou pela sala - que parecia ser maior do que aqueles minguados metros quadrados ofereciam - e deixou as chaves no móvel. O que Catarina tinha era cansaço. Dona Catarina estava cansada de receber desculpas. Generosamente, ela sempre distribuía perdões - alguns eram mais difíceis de serem conseguidos, mas saíam, sim. Mirando as chaves jogadas na mesa de centro ela percebeu.
A linha de produção de perdões era uma tentativa - estúpida - de prender o amor em seu dia-a-dia. Pessoal, a pobre Catarina pensava que perdoando e enterrando suas mágoas ela seria capaz de trazer o amor para sua vida. Para aquele seu coração canceroso. Com os olhos inchados fixos no brilho daquele molho de chaves ela deu-se conta de que nunca machucara alguém. Nunca tinha feito com que ninguém chorasse por ela.
Na cozinha, ela abriu a garrafa de vinho há muito guardada para uma ocasião especial (mas como ter uma ocasião especial, Catarina, se você nem mesmo foi capaz de verter lágrimas em quem quer que fosse?). Repousou o líquido na taça de cristal - presente da mãe -, cheirou-o e bebeu-o. Do móvel da sala, ela emprestou um folha de papel e uma caneta.
A sensação de, pela primeira vez, ter saído de casa sem amor era maravilhosa. Perder a fé, na verdade, era libertador. Mais do que qualquer droga; mais do que os mendigados segundos de alegria e de carinho que achava que conseguia ter. E, deliciando-se com as palavras, Catarina encheu o papel de frases. Usou nele sua melhor caligrafia e decorou-o com os adesivos que a prima esquecera por lá há meses.
Ninguém chorará a morte de Catarina. Nem por sua carta suicida, nem por seu apartamento banhado em sangue. Para ela, isso não importa. Catarina não era mulher como as outras, e o que importa é que ontem ela conseguiu sair de casa sem amor.